
A decisão de renovar o afastamento e sem prazo, ignora a vontade popular e coloca a cidade à beira de um colapso.
Como moradora do Amapá, entristece-me o completo descaso com o que acontece aqui. O que deveria repercutir é abafado. O que foge à normalidade está sendo tratado como comum.
Para quem não sabe, não viu ou não quer ver, no dia 04 de março, Macapá foi surpreendida por uma decisão do STF, assinada por Flávio Dino, que afastou o então prefeito Dr. Furlan, o vice Mário Neto e mais duas pessoas de sua gestão, colocando o então presidente da Câmara de Vereadores, Pedro Dalua, na cadeira de prefeito. Na decisão, questionada por advogados e juristas e apontada como de cunho político, Dino determinou o afastamento por até 60 dias.
O que a cidade viveu durante esses 60 dias — que se encerrariam agora — é inacreditável. Ao relatar, parece um filme de terror misturado com humor mórbido, com episódios que chegam ao absurdo, incluindo áudios vazados que revelaram não apenas questões pessoais, mas principalmente o modus operandi de como decisões são tomadas. Houve relatos de acordos envolvendo o TCE para aprovação de contas do ex-prefeito e atual governador Clécio, planos de perseguição ao então prefeito Dr. Furlan e articulações dentro do tribunal em plena manhã de segunda-feira em busca de favores.
Na prática, durante esse período, Macapá foi obrigada a conviver com lixo nas ruas, exonerações em massa, falta de merenda nas escolas e, em alguns casos, ausência de professores e estagiários. Houve salários atrasados e até não pagamento de trabalhadores que cumpriram integralmente suas funções. Profissionais foram desligados sem aviso prévio e continuaram trabalhando sem saber. Um cenário desolador, especialmente na semana do trabalhador.
Famílias estão enlutadas — esse é o sentimento. Prejudicadas, sem perspectiva de sustento ou de como pagar suas contas. Até mesmo aposentados municipais tiveram seus proventos atrasados, algo que nunca havia ocorrido durante a gestão afastada.
Com o passar dos dias, a população aguardava o dia 04 de maio, quando Mário Neto assumiria, já que Dr. Furlan renunciou para se tornar pré-candidato ao governo. No entanto, em 02 de maio, um sábado, o ministro responsável pela decisão determinou a prorrogação do afastamento — desta vez, sem prazo definido.
A nova decisão voltou a surpreender especialistas do direito, reforçando a percepção de motivação política. Trata-se, ao que parece, de um processo sempre aberto a novas medidas, cujo resultado prático é retirar o poder municipal do grupo de Dr. Furlan.
Saber que a cidade inicia mais uma semana sob essa gestão provisória, sem qualquer previsão de normalização, impacta profundamente toda a população — jovens, idosos, profissionais e estudantes. Não há uma área sequer que não tenha piorado, e essa é a percepção geral de uma população sem meios de reação.
Surge então o questionamento: estariam tentando forçar a renúncia de Mário Neto, anulando na prática o resultado das eleições de 2024, quando a chapa foi eleita com 85% dos votos? O grupo político conhecido como “turma do atraso” estaria disposto a tomar a prefeitura a qualquer custo, diante do crescimento político de Dr. Furlan?
Mário Neto divulgou nota afirmando que não há sequer denúncia formal contra ele, inexistindo provas de culpa, e reforçando sua inocência. Alertou ainda para a insegurança jurídica da medida:
“Uma medida liminar não pode se transformar em punição antecipada. No direito penal, o rito deve ser respeitado: primeiro a investigação, depois a denúncia e, por fim, o julgamento. Inverter essa lógica fere princípios básicos do devido processo legal.”
Ele também demonstrou preocupação com os impactos na cidade:
“Como cidadão e gestor eleito, lamento ver Macapá enfrentando desafios crescentes na limpeza urbana, no atendimento à saúde e na eficiência de serviços essenciais.”
Mário Neto defende que investigações ocorram dentro dos limites legais, sem comprometer o voto popular e a estabilidade institucional.
Esse cenário de disputa pelo poder não é recente. Teve início em 2021, quando Dr. Furlan assumiu a prefeitura após derrotar o irmão de Davi Alcolumbre. Durante sua gestão, promoveu mudanças significativas na capital e estabeleceu uma conexão direta com a população, reunindo apoio tanto da direita quanto da esquerda.
Seu perfil pragmático, carisma e capacidade administrativa fortaleceram sua liderança e deram origem a um novo grupo político, independente das estruturas tradicionais. Essa ruptura, no entanto, trouxe consequências: perseguições políticas e pressões constantes.
Mesmo assim, Dr. Furlan manteve postura de não confronto direto, aguardando decisões judiciais enquanto segue em pré-campanha ao governo, crescendo nas pesquisas.
A instabilidade atual é interpretada como tentativa de pressão para negociação ou desistência — ambas difíceis. Negociar com quem acusa e persegue implica riscos; recuar pode custar ainda mais caro politicamente.
A escolha tem sido persistir. Não por ambição pessoal, mas pela crença de que é possível fazer política voltada à população, com gestão comprometida e transparente.
Se esse cenário é inevitável no momento, resta atravessá-lo com resiliência. Para aqueles que acreditam nesse modelo de gestão, não há retorno.
Diante de um adversário poderoso, permanece a esperança de que esse poder não seja absoluto — e que, eventualmente, se esgote.
Enquanto isso, para quem vive a realidade da cidade, restam os efeitos imediatos: lixo, precariedade, desemprego, desrespeito e tristeza. Porque Macapá foi colocada nas mãos de alguém não eleito — e transformada em um brinquedo.
Adriana Garcia
Jornalista na Amazônia
Colabore anuncie onde você encontra conteúdo de valor
