
Mudanças drásticas feitas pela gestão interina afetaram as crianças que precisam de rotina e têm dificuldades de adaptação.
]A situação das clínicas escola “Coração Azul”, em Macapá, tem gerado crescente preocupação entre pais, profissionais e usuários do serviço. Denúncias apontam desorganização, mudanças abruptas na equipe técnica e possíveis irregularidades na gestão das unidades localizadas nas zonas sul e norte da capital.
Uma mãe de paciente atendida na clínica da zona sul, que preferiu não se identificar, relatou uma série de problemas que considera inaceitáveis. Segundo ela, há informações de que as duas diretoras atualmente responsáveis pelas unidades são irmãs e sócias em uma clínica particular que atende pessoas com autismo — o que levanta questionamentos entre os pais.
De acordo com o relato, a situação mais crítica estaria na clínica da zona norte, que estaria sem terapeuta ocupacional (TO), profissional essencial no acompanhamento de crianças com transtorno do espectro autista (TEA).
“Estão tirando crianças antigas e colocando outras que ainda nem têm laudo. Parece que é para ganhar voto. A clínica está lotada, mas querem retirar quem já era atendido para colocar novos pacientes. Muitas mães estão se sentindo lesadas e já estão denunciando ao Ministério Público”, afirmou.
A mãe também denuncia queda na qualidade dos atendimentos e desorganização interna:
“As crianças não estão tendo educação física, estão apenas brincando. Os novos funcionários não sabem informar nada. Está uma bagunça total.”
Outro ponto levantado foi a suposta pressão política dentro das unidades. Segundo ela, pais que fazem críticas à atual gestão estariam sofrendo retaliações:
“No Dia do Autismo, queriam que as mães dessem entrevistas. Uma mãe se recusou, dizendo que a clínica foi criada pelo Dr. Furlan e pela Dra. Rayssa, e não pelo Pedro Dalua. Quem fala algo contra ele está sendo perseguido. As mães têm medo de denunciar.”
A denunciante também destacou mudanças na forma como datas comemorativas vêm sendo tratadas:
“Antes, mesmo com limitações, faziam café da manhã, brincadeiras, davam bombons. Era um dia especial para as crianças. Hoje não tem mais nada. Está tudo desorganizado.”
Ela reforça ainda que mudanças abruptas no atendimento podem prejudicar diretamente o desenvolvimento das crianças:
“Nossos filhos já estavam adaptados. Minha filha evoluiu muito — antes não queria ir à escola, não se socializava, se machucava. Hoje já melhorou muito. Essas mudanças mexem com a cabeça deles. É muito complicado.”
Carta aberta denuncia troca de equipe e quebra de protocolos
A psicóloga Ana Clébia publicou uma carta aberta nas redes sociais denunciando decisões da nova gestão da clínica da zona norte. Segundo ela, toda a equipe do turno da tarde foi substituída sem justificativa técnica.
A profissional afirma ainda que a diretora não se apresentou à equipe e que pessoas sem vínculo formal com a instituição passaram a atuar dentro da unidade:
“Estão trazendo profissionais sem decreto, sem respaldo legal. Não há nenhum órgão que ampare a permanência dessas pessoas na clínica.”
A carta também denuncia violação de protocolos éticos e profissionais:
“Estão abrindo prontuários, entrando nas salas dos técnicos, questionando a forma de trabalho dentro dos atendimentos, quebrando o sigilo profissional e a integridade dos alunos.”
Ana Clébia alerta para os impactos dessas mudanças no desenvolvimento das crianças:
“Na disputa de poder, o menos importante está sendo o bem-estar dos alunos. Trocar uma equipe inteira é uma violência contra essas crianças, que já estão adaptadas aos profissionais que garantem sua regulação emocional e aprendizado.”

As crianças já estavam acostumadas com a equipe técnica que foi exonerada sem motivos aparentes, gerando transtornos.
Ex-secretária de Saúde critica decisões e alerta para riscos
A ex-secretária municipal de Saúde, Dra. Érica, também se manifestou publicamente por meio de vídeo nas redes sociais. Ela criticou a substituição da equipe técnica sem critérios claros e reforçou a importância do vínculo no tratamento de crianças com TEA:
“No autismo, o vínculo é fundamental para o desenvolvimento. Como mãe atípica, reforço que o que deve ser priorizado não é politicagem, mas políticas públicas sérias, com continuidade e respeito às crianças, às famílias e aos profissionais.”
Denúncias se acumulam e gestão é cobrada por respostas
A atual gestão interina da Prefeitura de Macapá tem sido alvo de críticas por decisões consideradas drásticas, que estariam impactando diretamente a qualidade dos serviços públicos. No caso das clínicas escola, as mudanças vêm gerando uma onda de denúncias, inclusive com a possibilidade do caso ir parar no Ministério Público.
Diante da gravidade das acusações, a reportagem permanece aberta para manifestação da gestão temporária liderada por Pedro Dalua, para que esclareça os fatos e apresente medidas que garantam a continuidade e a qualidade do atendimento.
Pais e profissionais reforçam que as clínicas escola são um patrimônio público e devem ser conduzidas com responsabilidade, transparência e respeito:
“A clínica não pertence a gestor ou diretor. Ela é do povo. E precisa atender com dignidade, qualidade e respeito — sem perseguições ou retaliações.”
Adriana Garcia
Jornalista na Amazônia
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