
Eleger um governador sem maioria no parlamento, complica e quem perde é o povo. É dificil entender isso?
Em artigo opinativo, Adriana Garcia analisa os resultados das eleições no Amapá, a transferência de votos para o Senado e a responsabilidade do eleitor na composição do Legislativo. Para a jornalista, a cobrança por governabilidade precisa considerar as escolhas feitas nas urnas.
Por Adriana Garcia | Conservador News
O resultado das eleições no Amapá deixou uma importante lição para quem deseja compreender a política para além das disputas eleitorais: escolher um governador não significa, necessariamente, garantir a ele uma base parlamentar capaz de facilitar a execução de seu projeto de governo.
Ao analisar os números das urnas, um aspecto chama a atenção: Dr. Furlan obteve uma votação expressiva, mas não conseguiu eleger a maioria dos parlamentares de sua base política na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa do Amapá (Alap).
A contradição merece uma reflexão. Afinal, se o eleitor deseja um governo alinhado às suas expectativas, também precisa compreender a importância de suas escolhas para a composição do Legislativo.
É sobre essa relação entre voto, governabilidade e responsabilidade cidadã que proponho esta análise.
Furlan demonstrou força eleitoral e capacidade de transferência de votos
Dr. Furlan somou 281.595 votos, consolidando uma votação histórica no cenário político amapaense.
Além da expressividade desse resultado, os números analisados nesta avaliação apontam para sua capacidade de mobilização eleitoral em favor dos candidatos ao Senado Lucas Barreto e Dra. Rayssa Furlan.
Segundo os cálculos apresentados nesta análise, aproximadamente 94,03% dos votos de Furlan foram convertidos em votos para Dra. Rayssa (264.799 votos). Já cerca de 75,9% de seus eleitores também votaram em Lucas Barreto e Dra. Rayssa para as duas vagas ao Senado (213.948 votos).
Esses percentuais sugerem uma estratégia eleitoral bem-sucedida, baseada na associação entre os três nomes.
Durante a campanha, Furlan, Lucas e Rayssa apareceram juntos em diferentes momentos, transmitindo ao eleitorado uma mensagem de unidade política. A estratégia buscava demonstrar que a eleição dos dois candidatos ao Senado seria importante para fortalecer a representação do Amapá e ampliar as condições de apoio ao futuro governo.
É importante reconhecer, entretanto, que Dra. Rayssa também possui seus próprios méritos eleitorais. A transferência de votos não explica, isoladamente, o resultado de uma candidatura, pois existem outros fatores envolvidos, como a trajetória dos candidatos, suas propostas e a identificação dos eleitores com suas campanhas.
Ainda assim, a votação casada dos três nomes constitui um elemento relevante para compreender o desempenho eleitoral do grupo.
Apoio de Flávio Bolsonaro reforçou a estratégia para o Senado
Outro episódio da campanha foi a manifestação pública de apoio de Flávio Bolsonaro às candidaturas de Lucas Barreto e Dra. Rayssa.
O gesto contribuiu para reforçar a identificação dos dois candidatos com uma parcela do eleitorado alinhada à direita e à centro-direita.
Na minha avaliação, porém, é necessário distinguir o peso desse apoio da força eleitoral construída localmente. A campanha de Lucas e Rayssa já contava com a associação ao nome de Furlan e com uma estratégia de mobilização conjunta. Portanto, não seria correto atribuir o resultado exclusivamente à manifestação de apoio de uma liderança nacional.
Também considero importante discutir a natureza dessa aliança.
Nem todo candidato que recebe apoio de uma liderança identificada com a direita representa, necessariamente, o mesmo posicionamento ideológico em todas as pautas. No caso amapaense, a competitividade eleitoral, a capacidade de articulação e a possibilidade de construção de uma base política no Senado também fizeram parte desse cenário.
A pergunta que fica é: quais candidaturas reuniam condições competitivas e perspectivas de contribuir para as mudanças defendidas por esse campo político?
Voto de protesto contra Randolfe também marcou a disputa
Na minha avaliação, um dos componentes de maior peso ideológico na eleição para o Senado foi o voto de protesto contra Randolfe Rodrigues.
Parte do eleitorado de direita manifestou sua insatisfação com o senador e buscou uma alternativa nas urnas. Esse movimento ajudou a fortalecer o ambiente eleitoral favorável às candidaturas de Lucas Barreto e Dra. Rayssa, embora seja necessário considerar que diferentes motivações influenciaram a escolha dos eleitores.
O resultado também evidencia que o voto de protesto pode ter consequências concretas na composição política de uma instituição. No entanto, a eleição de representantes não deve ser analisada apenas pela rejeição a determinados nomes. É igualmente importante avaliar as propostas, a atuação parlamentar e os compromissos assumidos pelos candidatos eleitos.
O eleitor não garantiu maioria a Furlan na Câmara dos Deputados
Se a votação para o Senado demonstrou a força da estratégia conjunta, os resultados para a Câmara dos Deputados revelaram outra realidade. Durante a campanha, Dr. Furlan pediu aos eleitores que também votassem nos candidatos de sua aliança para deputado federal e deputado estadual.
Entretanto, segundo os cálculos apresentados nesta análise, apenas 52,7% dos eleitores de Furlan votaram, para a Câmara Federal, em candidatos das nominatas de sua aliança, formada por Novo, PL, Podemos e PSB (total de 148.403 votos). O resultado foi a eleição de apenas dois deputados federais desse campo político, enquanto os outros seis eleitos não pertencem ao arco de alianças de Furlan.
Esses números ajudam a explicar a dificuldade de construir uma base parlamentar majoritária. O eleitor demonstrou apoio ao projeto político de Furlan na disputa pelo governo, mas distribuiu seus votos legislativos entre candidatos de diferentes grupos.
Isso não significa que todo parlamentar de fora da base seja necessariamente contrário ao governo. A oposição pode exercer um papel legítimo e construtivo, assim como parlamentares aliados precisam manter sua independência e responsabilidade institucional. O ponto central é outro: a composição da Câmara Federal não corresponde integralmente ao campo político que apoiou Furlan. Essa realidade exige articulação, diálogo e capacidade de negociação.
Na Assembleia Legislativa, o cenário é ainda mais desafiador
Na disputa pelas vagas da Assembleia Legislativa do Amapá, os números apresentados também apontam para uma dificuldade de composição da base governista. Segundo os cálculos desta análise, apenas 41,53% dos eleitores de Furlan votaram em candidatos a deputado estadual pertencentes às nominatas aliadas ao projeto político do governador (totalizando 116.959 votos).
O resultado foi a eleição de cinco parlamentares desse grupo, em um total de 24 vagas na Assembleia Legislativa. Na prática, isso significa que o governador terá de lidar com uma composição parlamentar na qual sua base não possui maioria própria. Esse cenário pode dificultar a aprovação de projetos, a construção de consensos e a implementação de determinadas propostas. É justamente por isso que a eleição para o Legislativo precisa ser tratada com a mesma seriedade da disputa pelo Executivo.
Não basta escolher quem governará. É necessário compreender quem terá a responsabilidade de elaborar leis, fiscalizar o governo e participar das decisões que afetam diretamente a população. Os percentuais citados neste artigo correspondem aos cálculos apresentados pela autora e devem ser considerados à luz da metodologia utilizada para relacionar os votos destinados aos candidatos ao governo e ao Legislativo.
Antes de acusar Furlan de se render à velha política, é preciso olhar para as urnas
Com o fim da campanha eleitoral, começa a etapa mais difícil: transformar promessas em resultados concretos. Sem uma maioria parlamentar própria, Furlan precisará dialogar com diferentes grupos políticos para construir condições de governabilidade. É nesse momento que podem surgir críticas sobre aproximações, acordos e negociações com parlamentares que não fizeram parte de sua aliança eleitoral.
Essas críticas são legítimas quando fundamentadas em fatos e no interesse público. O governador deve ser cobrado pelo cumprimento de suas promessas, pela transparência de suas decisões e pela qualidade dos acordos que estabelecer. Entretanto, considero injusto ignorar a composição do Legislativo ao avaliar as dificuldades políticas do governo.
O eleitor escolheu Furlan para governar, mas não lhe garantiu maioria parlamentar. Essa decisão também precisa entrar na conta quando se discute governabilidade.
Isso não significa responsabilizar exclusivamente a população por eventuais problemas futuros. A responsabilidade pela atuação política é compartilhada, mas cada agente público responde pelas decisões que toma.
O governador não pode usar a falta de maioria como justificativa para abandonar seus compromissos. Da mesma forma, os parlamentares não devem transformar suas posições políticas em instrumentos de pressão para obter vantagens indevidas. A negociação faz parte da democracia. O que não pode ser aceito é que ela se afaste do interesse coletivo.
Governabilidade não pode significar submissão
A política exige diálogo, capacidade de articulação e disposição para construir acordos.
Um governador que não possui maioria própria precisa conversar com parlamentares de diferentes partidos e posições ideológicas. Essa é uma característica do funcionamento das instituições democráticas.
Entretanto, existe uma diferença fundamental entre negociar para aprovar projetos de interesse público e ceder a pressões que contrariem os compromissos assumidos com a população. É por isso que defendo que Furlan tenha sabedoria para conduzir as relações políticas sem perder de vista as prioridades do Amapá.
A população precisa cobrar que os acordos sejam transparentes, que as propostas sejam avaliadas por seus méritos e que os recursos públicos sejam utilizados de maneira responsável. Não se trata de dar um cheque em branco ao governador, mas de reconhecer as condições políticas em que ele terá de trabalhar. O mesmo princípio deve valer para os parlamentares. Independentemente de integrarem a base governista ou a oposição, eles foram eleitos para representar a população. A divergência política não pode ser confundida com autorização para agir contra o interesse público.
Nessa conjuntura criada pelo próprio eleitor, qual a chance do Dr. Furlan conseguir ter um dos cinco deputados estaduais de sua base como presidente da ALAP, se quem escolhe é a maioria dos 24 deputados? Se ele apostar num candidato aliado de primeira hora e perder, será que terá governabilidade? O eleitor em geral, não consegue discernir a complexidade disso e conclui precipitadamente, sem fazer cálculos. A verdade é que a disputa eleitoral acabou e agora é preciso trabalhar com quem o povo elegeu.
Um exemplo disso é que o deputado estadual mais votado é filho do Waldez Goes, que foi governador do estado por 16 anos e está no grupo que a população em geral denominou de grupo do atraso. Quem colocou ele nesta posição foi o povo e agora precisa partilhar a responsabilidade dessa escolha. O Dr. Furlan terá que subir essa montanha e sua jornada pode não ser fácil, especialmente se esses deputados eleitos e reeleitos na ALAP estiverem dispostos somente a atrapalhar o seu governo e não a contribuir com uma transformação que todos sabem que precisa acontecer.
Nos primeiros 4 anos do Dr. Furlan como prefeito em Macapá, ele teve bastante êxito, mesmo com minoria na Câmara Municipal. No seu segundo mandato, diante de estratégias da oposição de fazer uma maioria exatamente para derrotá-lo fora das urnas, não foi fácil, resultando inclusive num afastamento ilegal e na entrega da prefeitura, interinamente, para Pedro Dalua, que foi desde o inicio colocado como presidente da Câmara para este fim. Mesmo com esse exemplo amargo que a população da capital até hoje digere, sem data para ter fim, os eleitores não entenderam que o Dr. Furlan precisava ter maioria para ter a garantia de um mandato onde seus projetos pudessem fluir e não serem resistidos por questões politicas eleitoreiras.
Como o eleitor pode ajudar o governador depois das eleições?
A resposta é simples: cobrando seus representantes. Quem votou em Furlan e deseja que suas propostas sejam implementadas precisa acompanhar a atuação dos deputados estaduais e federais eleitos pelo Amapá.
É necessário verificar como esses parlamentares se posicionam diante de projetos importantes, quais demandas defendem e quais resultados entregam à população. Se um deputado pertence à oposição, isso não o dispensa de trabalhar pelo estado. Se integra a base governista, também não está livre de fiscalização. O eleitor precisa abandonar a ideia de que sua participação política termina no dia da votação.
É possível procurar os gabinetes, encaminhar demandas, acompanhar sessões legislativas, cobrar posicionamentos públicos e avaliar o desempenho dos mandatos. Em vez de direcionar toda a pressão ao governador quando houver dificuldades políticas, a população também deve cobrar dos parlamentares a responsabilidade que assumiram ao pedir votos.
O voto é uma autorização temporária para representar o cidadão, não um cheque em branco para o político fazer o que quiser.
Essa cobrança deve ser firme, mas baseada em fatos, respeito às instituições e compromisso com o interesse coletivo.
A mesma lógica vale para Macapá
A importância da participação cidadã não se limita ao governo estadual.
Em Macapá, a discussão sobre a situação política do município e a defesa do mandato conquistado nas urnas também demonstram como as decisões institucionais afetam a vida da população. A mobilização em torno do retorno à normalidade institucional e da situação do prefeito eleito Mário Neto precisa ser compreendida para além dos interesses pessoais dos envolvidos.
Na minha avaliação, o respeito à escolha eleitoral e o funcionamento regular das instituições são questões de interesse público. Por isso, o cidadão deve acompanhar a atuação dos vereadores, conhecer seus posicionamentos e cobrar explicações quando considerar que suas decisões contrariam os compromissos assumidos com o eleitorado.
Caso discorde da posição de seu representante, o cidadão tem o direito de questioná-lo, manifestar sua insatisfação e reconsiderar seu voto em futuras eleições. Essa cobrança, naturalmente, precisa respeitar os fatos, o devido processo legal e as competências de cada instituição. O importante é não permitir que a participação política se resuma à defesa incondicional de um candidato ou partido. A democracia exige fiscalização permanente, inclusive daqueles em quem votamos.
A lição das urnas: o voto não termina na eleição
O resultado eleitoral do Amapá oferece uma oportunidade para refletirmos sobre a relação entre o Executivo, o Legislativo e a responsabilidade do eleitor.
A vitória de Furlan demonstra a força de seu projeto político junto ao eleitorado. Entretanto, a composição da Câmara dos Deputados e da Assembleia Legislativa mostra que esse apoio não se traduziu em maioria parlamentar própria. Essa diferença terá consequências na dinâmica política do estado.
Furlan precisará demonstrar capacidade de articulação, preservar seus compromissos e trabalhar para que as negociações políticas produzam benefícios concretos para a população.
Os parlamentares, por sua vez, deverão exercer seus mandatos com responsabilidade, independentemente de suas posições diante do governo.
E o eleitor precisa compreender que suas escolhas têm consequências.
Não é razoável exigir resultados como se a composição do Legislativo fosse diferente daquela definida pelas urnas. Também não é aceitável usar essa composição como justificativa para descumprir promessas ou negligenciar as necessidades da população.
O desafio é construir uma relação de responsabilidade entre os três lados.
O governador tem o dever de governar. Os parlamentares têm o dever de legislar e fiscalizar. E o cidadão tem o direito — e a responsabilidade democrática — de acompanhar e cobrar os dois.
Se o eleitor deseja renovação política, precisa avaliar não apenas o candidato ao Executivo, mas também aqueles que ocuparão as cadeiras do Legislativo.
Se deseja um governo eficiente, deve acompanhar as decisões que podem facilitar ou dificultar sua atuação.
E, se deseja representantes comprometidos com o povo, precisa cobrar coerência durante todo o mandato, não apenas durante a campanha eleitoral.
A eleição passou. Agora, é hora de trabalhar, fiscalizar e cobrar.
Porque a democracia não se resume ao direito de votar. Ela também depende da disposição de cada cidadão para acompanhar o exercício do poder e exigir que seus representantes cumpram suas responsabilidades.
Adriana Garcia é jornalista e assina este artigo de opinião para o Conservador News.
