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 davi dalua

Áudio vazado revela guerra pelo poder e levanta dúvidas sobre decisões judiciais

Nesta terça-feira, 24, o portal de notícias Metrópoles divulgou um áudio de uma conversa entre Davi Alcolumbre e Pedro Dalua, ambos do União Brasil. Sem a divulgação da data exata, o contexto aponta para o segundo semestre de 2025, antes da expofeira realizada no final de agosto.

Aquilo que todos desconfiavam ficou escancarado na conversa. Davi Alcolumbre utiliza seu poder como presidente do Congresso Nacional para influenciar decisões de tribunais que o beneficiem e prejudiquem adversários políticos.

No momento do diálogo, Dalua era presidente da Câmara de Vereadores. Há ainda outros nomes citados: o atual governador e aliado de Davi, Clécio Luís, e o Dr. Furlan, à época prefeito de Macapá e recentemente afastado por uma decisão judicial monocrática assinada pelo ministro do STF Flávio Dino.

No dia em que os áudios vêm a público, Dr. Furlan não é mais o prefeito de Macapá.  Após o afastamento, juntamente com seu vice, Dr. Furlan renunciou ao cargo e hoje é pré-candidatura ao governo pelo PSD — partido que também passou a presidir no estado.

Com a caneta de Dino, quem assume interinamente a prefeitura é justamente Dalua. Esse fato recente apenas reforça a percepção de que o grupo de Alcolumbre está disposto a tudo para não sair do poder.

Dr. Furlan aparece em primeiro lugar nas pesquisas, com 65% das intenções de voto, vencendo em primeiro turno caso as eleições fossem hoje. Ainda assim, o grupo de Davi age como se tivesse garantias de reeleição de Clécio, mesmo com quase 50% de rejeição e apenas 25% das intenções de voto.

Seria isso reflexo do trânsito livre de Alcolumbre nos tribunais? O que dá tanta segurança aos seus aliados de que Furlan não vencerá as eleições? Existe alguma “entrega” sendo articulada em salas reservadas do Judiciário?

A seguir, a transcrição da gravação para que o leitor tire suas próprias conclusões:

 

Dalua: “Onde é que eu te entrego meu cú?”

Alcolumbre (risos): “pode ir só amanhã no tribunal 10h da manhã”

Dalua: “Certo”

Alcolumbre: “Explicar para ele toda circunstância jurídica e política do caso, que eu disse que eu só estava pedindo pra ele porque o prefeito de Macapá tem muita força e tem muito poder, mas ele não pode tudo”.

Dalua: “perfeito”.

Alcolumbre: “o poder legislativo não pode ser subjugado quando o prefeito comete crime de responsabilidade de não passar o duodécimo”

Dalua: “exatamente, exatamente”

Alcolumbre: “e as nossas diferenças políticas, meu querido presidente (inaudivel) elas vão continuar porque elas são conceituais”.

Dalua: “perfeito”

Alcolumbre: “infelizmente o nosso prefeito de Macapá, no meu ponto de vista, é um personagem, que ele tá vivendo do nosso trabalho, da nossa atuação enquanto senadores, governador, tudo que a gente fez pela cidade ele desconsidera tudo que a gente faz, querendo ganhar os louros só pra ele, pra mulher dele, pro irmão dele, pro filho dele”.

Dalua: “Perfeito”

Alcolumbre: “eu não faço política assim. Eu faço política de grupo, eu faço política de entrega e tem uma coisa que eu gosto de fazer é ser grato às pessoas e reconhecer aquelas que trabalham”.

Dalua: “porra”

Alcolumbre: “Meu irmão, eu preciso da sua ajuda para restabelecer a autoridade do presidente da câmara, que é meu irmão, sempre teve comigo”.

Dalua: “perfeito”

Alcolumbre : “me ajudou nos momentos mais difíceis da minha trajetória política e ele não pode ser subjugado, desconsiderado, não como Dalua, mas como chefe de um poder”.

Dalua: “Perfeito. Porra, eu to todo arrepiado aqui e eu vou lhe falar mais, vou lhe dar mais um presente. O senhor quer mais um presente ou não?”

Alcolumbre: “Claro”

Dalua: “Então é o seguinte: a gente vai comunicar o TCE desse nosso acesso à justiça e na terça-feira eu já mandei aprovar as contas do nosso governador que era prefeito Clécio Luís. Eu vou apresentar na terça-feira para nossa base aprovar e aprovando terça-feira, eu to preparando uma próxima semana sem ser essa na outra já, a primeira CP a comissão processante. O nosso governador disse que é pra atacar na macapaprev que lá que o negócio tá pegando. Eu quero atacar em duas. Eu quero pegar Macapaprev e CTMAC, que eu quero que enquanto o nosso governador estiver lá na expofeira inaugurando a expofeira, o filho da puta do prefeito Furlan esteja preocupado com duas CPI, lá na câmara municipal de Macapá. Começou a guerra, o que que o senhor acha?

Alcolumbre: (inaudível)

Dalua: “então pronto, deixe comigo”

Alcolumbre: “É segunda-feira, 10h da manhã, no gabinete dele no tribunal, só você e ele”.

Dalua: “Tá”

Alcolumbre: “Pra você relatar todas as questões políticas e jurídicas sem advogado”

Dalua: “Tá, não é amanhã, é segunda, né?”

Alcolumbre: “segunda-feira”

Dalua: Perfeito. “Vou me qualificar. Deixe comigo”. 

Alcolumbre: “segunda” (inaudível)

Dalua: “deixe comigo, obrigado, com Deus”.

Diante dessa empreitada, cujo objetivo declarado é destruir politicamente o Dr. Furlan, é importante relembrar a cronologia dos fatos:

No dia 17 de agosto, o blogueiro Heverson Castro, ligado ao grupo de Davi, esteve em agenda do prefeito e fez questionamentos sobre a obra do hospital municipal, sugerindo atraso que não existia. Furlan percebeu a provocação e não respondeu. No mesmo momento, reagiu à ação de outra pessoa que acompanhava o blogueiro, imobilizando-a por alguns segundos.

O episódio ficou conhecido como “mata-leão” e ganhou repercussão nacional rapidamente e até com nota de repúdio da FENAJ — sem conhecimento detalhado dos fatos.

Dois dias depois, em 19 de agosto, Dalua presidia o pedido de CPI para investigar e cassar Furlan. A comissão processante foi aberta por 12 votos a 10, exatamente como mencionado no áudio. O processo acabou arquivado por unanimidade em 23 de setembro.

Em setembro de 2025, ocorreu a primeira fase da Operação Paroxismo, que investigava supostos desvios na construção do hospital. A gestão não ofereceu resistência à investigação.

Já no dia 4 de março de 2026, veio a segunda fase da operação, sem conclusão das investigações, mas acompanhada da decisão do ministro Flávio Dino de afastar o prefeito e o vice-prefeito. O Vice Mário Neto não é investigado na operação, e mesmo assim, foi afastado, o que mostra claramente que o objetivo é tirar da gestão municipal todo o grupo do Dr. Furlan. Uma decisão esdrúxula que levanta suspeitas de motivação política, e não técnica.

Com isso, Dalua — o mesmo que aparece no áudio — assume a prefeitura sem transição, em meio a um cenário de instabilidade administrativa, enquanto direciona esforços para incriminar a gestão anterior.

Dalua reconheceu a autenticidade da conversa vazada e afirmou que ela foi “republicana”.

Às vésperas das eleições de 2026, cresce a narrativa de que Dr. Furlan será preso — repetida por setores políticos e parte da mídia alinhada ao governo.

Mas até que ponto isso é plausível? Existe um processo conduzido com isenção ou uma articulação para retirá-lo da disputa? A quem o povo do Amapá pode recorrer diante desse cenário?

Conversas como essa escancaram a diferença entre quem usa a política para se manter no poder a qualquer custo e quem a enxerga como instrumento de transformação social.

Entre áudios vazados, visitas de Vorcaro à casa de Alcolumbre e os 400 milhões da AMPREV, resta ao Amapá aguardar que mais verdades venham à tona — e que todos os envolvidos respondam por seus atos.

Adriana Garcia

Jornalista na Amazônia

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