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Reportagem da Folha de S.Paulo expõe a dimensão da disputa política no Amapá e aponta o uso da força política construída em Brasília por Davi Alcolumbre para tentar preservar seu grupo no Estado

A disputa pelo Governo do Amapá ganhou repercussão nacional. Reportagem publicada nesta sexta-feira (18) pela Folha de S.Paulo coloca no centro do cenário político estadual a disputa entre o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil), e o ex-prefeito de Macapá Dr. Antônio Furlan (PSD), atual líder das pesquisas para o Governo do Estado.

Segundo a publicação assinada pelo jornalista Raphael Di Cunto, Alcolumbre estaria mobilizando sua influência política em Brasília e sua extensa rede de alianças no Amapá para tentar evitar uma derrota de seu grupo político. O senador não é candidato ao governo nesta eleição, mas sua atuação é apresentada pela reportagem como central na campanha de Clécio Luís (União Brasil), atual governador e seu aliado.

Furlan lidera pesquisa e amplia tensão política

O principal elemento que aumenta a tensão é o desempenho eleitoral de Dr. Furlan.

Pesquisa Quaest, realizada entre os dias 21 e 24 de agosto com 804 eleitores, registrou Furlan com 55% das intenções de voto, contra 35% de Clécio Luís. A margem de erro é de três pontos percentuais.

O ex-prefeito também chega à disputa estadual depois de ter sido reeleito para a Prefeitura de Macapá, em 2024, com 85,08% dos votos válidos, um dos resultados mais expressivos entre as capitais brasileiras.

A força eleitoral de Furlan ganha relevância pelo peso da capital no eleitorado amapaense. A reportagem da Folha destaca que aproximadamente 55% dos eleitores do Estado estão em Macapá, enquanto outros 15% estão na região metropolitana.

Uma estrutura política de grandes proporções

De acordo com a reportagem, Alcolumbre reúne uma ampla estrutura política para sustentar seu grupo.

A Folha afirma que o presidente do Senado conta com apoio de 15 dos 16 prefeitos do Amapá, cerca de 90% dos deputados estaduais e federais, além de uma aliança formada por 12 partidos.

A publicação também destaca a influência de Alcolumbre sobre emendas parlamentares e cargos federais, além de sua participação na indicação de ministros de Estado e na articulação de investimentos federais para o Amapá. A presença da Codevasf no Estado também é citada como parte dessa estrutura.

Essa atuação ajuda a explicar uma característica peculiar da política amapaense: embora Alcolumbre seja uma das figuras mais influentes do Congresso Nacional, sua atuação no Estado está fortemente concentrada na articulação de recursos, obras e investimentos.

O próprio senador resumiu sua estratégia em declaração à Folha:

“Nós vamos vencer pela política. Anota o que eu digo, vamos virar.”

A disputa ultrapassa a eleição de 2026

A reportagem sustenta que a preocupação do grupo de Alcolumbre não estaria restrita à eleição deste ano.

Uma eventual mudança no comando do Governo do Amapá poderia alterar o equilíbrio de forças para as eleições de 2030, quando Alcolumbre deverá buscar a própria reeleição ao Senado.

Nesse cenário, o grupo político de Furlan poderia ampliar sua influência sobre prefeitos, deputados e outras lideranças estaduais.

Outro fator citado é a situação de Rayssa Furlan, esposa do ex-prefeito, que disputou o Senado em 2022 contra Alcolumbre e aparece atualmente no cenário da próxima eleição para a Câmara Alta.

O peso das obras e da popularidade de Furlan

Enquanto Alcolumbre dispõe de uma estrutura política ampla, Furlan construiu sua força eleitoral principalmente a partir da administração de Macapá, da exposição nas redes sociais e de uma agenda marcada por eventos públicos e obras.

A reportagem lembra que o ex-prefeito adotou a imagem de “prefeitão” e passou a defender a ideia de levar para todo o Amapá o modelo de gestão desenvolvido na capital.

A estratégia produziu uma marca política própria, que se consolidou principalmente entre os eleitores de Macapá.

A eleição municipal de 2024 é apontada como um dos principais indicadores dessa força: Furlan obteve mais de 85% dos votos válidos na disputa pela prefeitura.

O episódio do apagão de 2020

A Folha também recupera um episódio decisivo para compreender a rivalidade entre os grupos.

Em 2020, Furlan disputou o segundo turno da eleição para prefeito de Macapá contra Josiel Alcolumbre, irmão de Davi Alcolumbre.

Naquele período, o Amapá enfrentava uma grave crise no fornecimento de energia elétrica. O apagão que atingiu o Estado se prolongou por semanas e provocou forte repercussão política.

Uma declaração de Davi Alcolumbre sobre os efeitos do apagão para a campanha de seu irmão ganhou repercussão durante aquela eleição. Furlan acabou vencendo a disputa.

A partir daí, a relação entre os dois grupos políticos passou a ser marcada por uma disputa cada vez mais intensa pelo controle político da capital e, posteriormente, do Estado.

Obras federais e a dependência dos municípios

Outro ponto explorado pela reportagem é a dependência de municípios amapaenses em relação aos recursos federais.

A Folha visitou Itaubal, município localizado a cerca de 100 quilômetros de Macapá, e ouviu moradores sobre obras realizadas com recursos de emendas parlamentares.

Moradores entrevistados destacaram a importância dos investimentos federais atribuídos à articulação de Alcolumbre. Ao mesmo tempo, a reportagem registrou relatos de moradores, assessores políticos e um empreiteiro sobre suposto favorecimento na distribuição de oportunidades de trabalho relacionadas às obras públicas.

Essas alegações são apresentadas pela Folha como relatos dos entrevistados, e não como fatos definitivamente comprovados.

Judiciário também entra no cenário

A disputa política amapaense também alcança o Judiciário.

A reportagem menciona o afastamento, por decisão do Supremo Tribunal Federal, do então vice-prefeito de Macapá, Mário Neto, aliado político de Furlan, e a consequente mudança no comando da prefeitura.

Também é citada a situação eleitoral de Furlan. O Ministério Público Eleitoral questiona sua renúncia à Prefeitura de Macapá e sustenta que a medida teria relação com a aplicação da Lei da Ficha Limpa.

Furlan, por sua vez, afirma que houve irregularidades na tramitação do processo político que antecedeu sua saída do cargo.

A candidatura está autorizada, mas há recurso em tramitação no Tribunal Superior Eleitoral, conforme relata a reportagem.

Uma eleição que ganhou dimensão nacional

O que chama atenção na reportagem da Folha é justamente a dimensão que a eleição amapaense passou a adquirir.

De um lado está uma das figuras mais influentes do Congresso Nacional, com ampla rede de alianças políticas e capacidade de articulação de recursos federais.

Do outro, um ex-prefeito que, apesar de contar com uma coligação menor, chega à disputa sustentado por uma expressiva votação municipal e pela liderança registrada nas pesquisas.

A reportagem nacional coloca, portanto, a eleição do Amapá como uma disputa que pode ultrapassar os limites do Palácio do Setentrião.

O resultado poderá interferir não apenas no comando do Estado, mas também na formação das forças políticas que estarão em campo nas eleições seguintes.

A Folha de S.Paulo classificou a situação como um momento de risco político para Alcolumbre, diante da possibilidade de seu grupo perder o controle do Governo do Estado. A pesquisa Quaest citada na reportagem mostra, neste momento, Furlan com 55% e Clécio com 35%.

A reportagem completa da Folha de S.Paulo pode ser conferida aqui: Folha de S.Paulo — Alcolumbre usa poder em Brasília para tentar evitar derrota política no Amapá

 

Adriana Garcia

Jornalista na Amazônia

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