
O partido dos perseguidos é o Brasil. Já o partido dos permitidos é qualquer um que se curve ao sistema.
O verdadeiro embate é entre os permitidos e os perseguidos
Durante décadas, o debate político brasileiro foi apresentado como uma disputa entre esquerda e direita. Essa narrativa dominou eleições, discursos, programas partidários e até mesmo a forma como os cidadãos passaram a enxergar a política nacional. No entanto, essa divisão já não explica a realidade do país. Hoje, na prática, existem apenas dois grupos reais em disputa: os permitidos e os perseguidos.
Esses grupos já receberam diversos nomes ao longo da história. Já foram chamados de sistema e antissistema, establishment e resistência. Enquanto isso, a população foi levada a acreditar que vivia uma alternância genuína de poder entre esquerda e direita, quando, na prática, ambas as forças políticas atuariam dentro dos limites estabelecidos pelo mesmo sistema.
A falsa direita e a esquerda permitida protagonizaram, durante anos, um espetáculo político que dava a impressão de confronto permanente. Porém, ambos os lados apenas representavam versões diferentes de um mesmo projeto de poder. Não é à toa que hoje, o vice-´presidente, Geraldo Alkimin, anos atrás disse em uma disputa eleitoral com o PT, que Lula queria voltar à cena do crime, referindo-se a Lula querer voltar a ocupar a cadeira de presidente da república. Na prática, ambos estão de volta à cena do crime. Nada mais emblemático do que esse fato para representar a falsa direita e a esquerda permitida.
A esquerda que nunca chegou ao poder
Para compreender essa interpretação, é necessário olhar para o passado. Houve um tempo em que setores da esquerda defendiam a liberdade de expressão, combatiam a censura, criticavam a concentração de poder da mídia tradicional, especialmente a Globo, e denunciavam influências estrangeiras sobre a política nacional. Eram os anti-imperialistas.
Essa seria a chamada "esquerda proibida": um movimento incapaz de chegar ao poder justamente por sua natureza antissistema. Uma esquerda que não aceitava ser domesticada e que, por isso, acabou sendo absorvida ou neutralizada pela esquerda institucional.
Em vez de romper com a estrutura dominante da esquerda convertida a tudo que a esquerda perseguida condenava, essa parcela acabou apostando na unidade política e na manutenção do projeto representado por Lula. Aos poucos, trocou a ruptura pela adaptação e passou a aceitar concessões em nome da permanência da esquerda no poder. Enquanto isso, a liderança política considerada aceitável pelo sistema consolidava sua posição como representante oficial da esquerda brasileira, mas rezando a cartilha de tudo que a esquerda proibida sempre criticou.
O fenômeno da direita antissistema
A mesma lógica pode ser observada atualmente na direita. O bolsonarismo é o único movimento político com expressão eleitoral que mantém características genuinamente antissistema. Nesse contexto, surge uma reflexão importante: o que aconteceria se a direita institucionalizada, a direita permitida assumisse definitivamente o protagonismo político?
Caso lideranças consideradas mais aceitáveis ao establishment, como Tarcísio, passassem a representar a direita no poder, haveria a substituição da direita perseguida por uma direita permitida, repetindo o mesmo processo vivido anteriormente pela esquerda. Nesse cenário, o movimento nacionalista, conservador, antiglobalista e defensor das liberdades individuais perderia sua identidade original para se tornar apenas mais uma engrenagem da estrutura existente. Não seria a morte de um movimento e nem a neutralização da figura de Bolsonaro. Seria a aniquilação da força política anti-sistema que foi despertada por Bolsonaro. A direita permitida tragaria a direita proibida claramente representada pelo Bolsonarismo.
Onde esquerda e direita proibidas se encontram
Existem pontos de convergência entre setores da esquerda e da direita que se consideram excluídos do sistema. Embora discordem profundamente em diversos temas, ambos compartilham críticas semelhantes à concentração de poder na Suprema Corte, à censura, à influência do liberalismo econômico e ao que classificam como avanço de agendas globalistas.
Para esses grupos, o verdadeiro adversário não seria o cidadão que pensa diferente, mas um sistema político, econômico e institucional que determina quem pode governar e quem deve ser impedido de chegar ao poder.
O ponto de ruptura de 2018
A eleição de Bolsonaro em 2018 representou um acidente histórico. Pela primeira vez, um candidato identificado como antissistema teria conseguido romper as barreiras que tradicionalmente protegiam a estrutura política dominante. A vitória expôs fragilidades do modelo e revelou ao público mecanismos de poder que antes passavam despercebidos.
A partir daí, iniciou-se um processo de reorganização institucional destinado a impedir que uma experiência semelhante voltasse a acontecer. A eleição de 2022 seria resultado dessa reorganização, consolidando novamente o retorno de Lula - uma liderança considerada compatível com os interesses do sistema.
O papel do Judiciário
Outro elemento central dessa análise é o crescimento do protagonismo do Judiciário brasileiro. Parte significativa do poder político foi transferida para tribunais que passaram a atuar para além de suas atribuições constitucionais. Nessa perspectiva, decisões judiciais passaram a influenciar diretamente o processo político, determinando quem pode disputar eleições, quais narrativas podem circular e quais grupos devem ser contidos. O resultado é sensação crescente de insegurança institucional e de enfraquecimento das garantias democráticas.
O surgimento de uma nova consciência política
Apesar das divergências ideológicas históricas, setores considerados dissidentes à esquerda e à direita começam a identificar problemas semelhantes.
A crítica à censura, ao excesso de poder institucional, à influência do globalismo, à agenda woke e à fragilidade das garantias constitucionais tornou-se um ponto comum entre grupos que antes se enxergavam como adversários irreconciliáveis. Essa convergência não elimina diferenças profundas, mas sugere que o debate político brasileiro pode estar passando por uma transformação mais ampla.
Prova disso é que um amigo disse-me hoje que está virando direitista por minha causa. Na verdade, o que nos une é a perseguição. Ambos, mesmo de vertentes diferentes, estão vendo a instrumentalização do judiciário para derrubar opositores políticos do sistema, seja de que ideologia for. A conclusão de que os "bolsominios" não estavam exagerando, de que eles estavam certos em alertar sobre a ditadura do judiciário, acaba convertendo aqueles que já entenderam contra quem estamos lutando. E, de fato, não é um contra o outro, mas juntos contra um sistema que está sendo imposto ao longo de séculos e que encontra-se no seu ápice de autoritarismo.
O futuro do Brasil está em disputa
O que está em jogo não é apenas a escolha entre candidatos ou partidos. A disputa é entre dois projetos de país: um que mantém a estrutura atual de poder e outro que busca reformá-la profundamente. O Brasil precisa recuperar sua soberania institucional, fortalecer suas liberdades, combater a impunidade, proteger seus interesses econômicos e construir instituições verdadeiramente comprometidas com a Constituição. Mais do que uma disputa entre direita e esquerda, o país está vivendo um conflito entre aqueles que o sistema aceita e aqueles que o sistema procura impedir.
Talvez a maior ilusão política das últimas décadas tenha sido acreditar que todas as forças em disputa possuíam as mesmas condições de competir pelo poder. O Brasil já não está dividido entre esquerda e direita. Está dividido entre os que podem participar do jogo e os que são impedidos de fazê-lo.
Cada vez mais brasileiros estão deixando de analisar apenas os discursos dos candidatos para observar quem exerce o poder, quem o desafia e quem define as regras do jogo. Cada vez mais eleitores estão entendendo que a democracia se conquista e o preço da liberdade é a eterna vigilância. A sociedade brasileira que acordou, já entendeu que é muito além de esquerda e direita, é sobre escravidão e liberdade. Uma ou outra, ao serem implantadas, atingirá todos, indistintamente.
Adriana Garcia
Jornalista na Amazônia
Colabore e anuncie onde você encontra conteúdo de valor

