
Ele deixa um legado de rasteiras em figuras famosas da política brasileira. Quem lhe colocará algum limite?
Você pode até não gostar de Alcolumbre, mas vamos tirar o chapéu: ele dá nó em pingo d’água. Conversando com alguém que conhece sua trajetória política, a lista de pessoas em quem ele deu rasteira é razoável e, na coleção, há líderes experientes que vão de Sarney a Lula. Mas ele também traiu Barcellos, Waldez, Roberto Góes e Bolsonaro. Caso Flávio acredite em suas promessas, será o próximo.
Mas para que serve tanta esperteza? Com certeza, não é para desenvolver o seu estado, que é um dos mais pobres e violentos, mas para acumular bens, controlar pessoas, manter-se no poder e garantir que o que pesa contra ele jamais seja investigado. Por isso, ele transita tanto entre todas as vertentes políticas e em todos os tribunais. Ele sabe dar aos outros o que querem, sabe agradar para ser correspondido, sabe ludibriar, falar o que todos querem ouvir enquanto faz o contrário. Depois que sentiu o gosto pelo poder, não faz outra coisa além de garantir-se nele. Seria uma espécie de “ditador” do Legislativo, que usa a cadeira da presidência para fazer negócios dos mais variados e para se omitir de fazer o que lhe cabe.
Alcolumbre é, na política, o que Moraes é no Judiciário. Ambos têm uma sede inesgotável de controle. E parece que o Banco Master os uniu para sempre, até que a morte os separe. A derrota de Messias tem mais a ver com controle do que com opinião a respeito do candidato de Lula. Tanto Alcolumbre quanto Moraes já sabiam que Messias não passaria. E por que eles estavam na mesma página? Há rumores de que, apesar de ser um indicado de Lula, Messias estaria muito mais afinado ao grupo de Mendonça do que ao grupo de Moraes e seria o voto de desempate, jogando luz nos crimes de ministros da ala política do Supremo. O alinhamento se demonstra, inclusive, na postagem de Mendonça lamentando a rejeição do amigo, a quem declara ser uma grande perda não tê-lo no STF.
Definitivamente, o escândalo do Banco Master vai desde um encontro de Vorcaro na casa de Alcolumbre de madrugada até o aporte de 400 milhões da Amapaprev, perdido, mas em algum lugar, até os serviços fantasmas prestados pela mulher de Moraes pela bagatela de 129 milhões. Mas claro que Lula também está no jogo e encontrou-se algumas vezes com o banqueiro fora da agenda oficial. Ex-ministros de seus governos prestaram serviços recebendo milhões de reais. Mas claro que ele e o PT vão negar até a morte e vão culpar Bolsonaro, justamente o que nunca esteve com Vorcaro e que é desprezado por ele em conversas descobertas em seu celular.
Mas Lula precisa descolar-se de Moraes e já andou fazendo isso em uma entrevista. Mesmo chamando-o de companheiro, ratificando a afinidade política, ele diz que Moraes precisa se declarar impedido de julgar assuntos do Banco Master devido ao envolvimento de sua esposa.
As incoerências da política são tantas que, se a população não reparar em todos os detalhes, cai facilmente em narrativas. O PT e a esquerda enterraram a CPMI do INSS e do Crime Organizado. Eles também não querem a CPI do Master. Porém, a chegada de Messias seria um reforço nas investigações do Master, o que não seria bom nem para Alcolumbre nem para Moraes. E foi aí que deve ter tido início uma articulação para negar a entrada de Messias na Suprema Corte.
A direita, que eles insistem em chamar de extrema direita, apenas soube aproveitar bem o cenário e conseguiu tanto descartar Messias quanto derrubar o veto da dosimetria. A narrativa de que Flávio se uniu a Moraes para conseguir esse êxito não se sustenta em pé. Com as duas derrotas de Lula em menos de 24h, uma delas inédita em mais de 130 anos, restou à esquerda culpar a direita e alegar que houve um acordão para barrar a CPI do Master e que querem livrar a cara de Bolsonaro das investigações. Só quem cai nessa é a sua bolha. A direita não está nem aí, nem mesmo para aqueles de direita que estão envolvidos até o pescoço, como é o caso do governador do Distrito Federal, Ibaneis. A direita tem fome e sede de justiça e quer o impeachment de ministros mais do que qualquer coisa, fazendo todos os esforços para ter maioria no Senado e poder executar o que prevê a Constituição Federal quando um ministro extrapola seus limites.
Mas aí, o menino prodígio entra em cena mais uma vez. Alcolumbre, vendo os ventos mudando, pensa: “Por que não eu?” e se coloca como candidato da direita para a reeleição da presidência do Senado, jurando de pé junto que vai pautar o impeachment. Será que alguém ainda acredita nele?
Com certeza, o amapaense mais poderoso da história recente já deixou um grande legado, especialmente quando o assunto é dar rasteira. Ele nunca se importou com os presos do 8 de janeiro, nem se importou com o fato de Messias ser abortista e perseguidor, podendo tornar-se até pior do que Moraes. Não houve virtude alguma em seus atos, apenas a execução de seus próprios interesses. Para ele, o que importa é manter-se no poder e manter-se impune. E, para isso, ele é como um personagem antigo da Escolinha do Professor Raimundo que dizia: “fazemos qualquer negócio” e “melhor zero na nota do que prejuízo no bolso”.
Ele segue malino, sem medo, afoito, tomando as principais decisões do país ou impedindo que elas sejam tomadas. Daria até para ter orgulho, se ele não fosse o responsável pela destruição da democracia, pela permissão do arbítrio e pela politização da justiça. De todos em quem ele deu rasteira, nenhum voltou para vingar-se. Mas, neste momento, ainda que seja a última coisa que Lula faça antes de sair, a torcida do povo de bem do Amapá é que o grande líder da esquerda lhe dê o troco de uma maneira que ele caia e nunca mais se levante.
Alcolumbre é um fenômeno, não de votos nem de credibilidade; um fenômeno que representa o pior que a política já produziu. Hoje ele é odiado por direita e esquerda e suportado pelo resto. Ele não tem aliados, tem reféns que podem ser descartados quando não lhe interessam mais. Ele até ainda pode muito, mas nenhum ser humano pode tudo, e espero que o futuro próximo lhe prove isso.
Adriana Garcia
Jornalista na Amazônia
