
O escândalo do banco Master passa pelo Amapá. Previdência pública aplicou R$ 400 milhões. Quem pagará o prejuízo?
A aplicação de cerca de R$ 400 milhões da AMPREV em uma instituição financeira que posteriormente entrou em regime especial expõe um problema que vai muito além de um erro pontual de investimento. Trata-se de uma questão institucional, fiduciária e republicana, que exige explicações claras, documentadas e públicas.
Fundos de previdência de servidores não são instrumentos de risco, nem podem ser tratados como extensão de articulações políticas ou relações institucionais de bastidores. Eles existem para garantir aposentadorias — não para sustentar apostas financeiras incompatíveis com sua natureza.
Não se discute aqui, de forma abstrata, a legalidade de investimentos em bancos. O ponto central é como, por que e sob quais critérios técnicos uma soma dessa magnitude foi concentrada em uma única instituição, especialmente em um ambiente que já apresentava sinais de fragilidade.
Gestão previdenciária exige perfil conservador, diversificação rigorosa, governança técnica independente, decisões blindadas contra influência política e compromisso absoluto com o interesse do servidor.
Quando aliados políticos indicam gestores, e esses gestores decidem onde aplicar centenas de milhões da aposentadoria pública, a obrigação de transparência se torna ainda maior. Não basta dizer que “estava dentro da lei”. É preciso demonstrar, documento por documento, que o interesse do fundo prevaleceu sobre qualquer outro interesse.
Diante dos fatos, algumas perguntas se impõem — e seguem sem respostas públicas:
- Quais critérios técnicos fundamentaram essa aplicação específica?
- Quais pareceres embasaram a decisão?
- Quem participou do processo decisório?
- Houve análise independente de risco?
- Que mecanismos de proteção patrimonial foram adotados?
- Por que não houve redução imediata da exposição diante dos primeiros sinais de instabilidade?
A ausência de respostas claras não configura crime por si só, mas compromete a confiança institucional e fragiliza a segurança jurídica da gestão previdenciária.
Previdência pública não pode operar sob lógica de favor, influência ou alinhamento político. O dinheiro não pertence ao gestor, ao governo nem a lideranças partidárias. Pertence ao servidor que contribuiu a vida inteira acreditando que o Estado cumpriria sua parte.
Por isso, é dever institucional garantir transparência integral, submeter as decisões a auditoria independente, permitir a atuação plena dos órgãos de controle, e, se for o caso, apurar responsabilidades administrativas e civis.
Este não é um debate eleitoral. Não é um ataque pessoal. Não é uma narrativa partidária. É uma cobrança legítima por governança, responsabilidade e respeito ao dinheiro da aposentadoria pública. Porque quando a previdência é tratada como ativo político, quem paga a conta é sempre o servidor.
Adriana Garcia
Jornalista na Amazônia
