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 tjap dalua

Um horário. Um encontro. E muitas perguntas sem resposta.

Não há como ignorar o impacto do áudio bombástico divulgado pelo portal Metrópoles, nesta terça-feira, 24, que expõe uma conversa entre Pedro Dalua e Alcolumbre. É importante situar o contexto temporal: os indícios apontam para meados de agosto de 2025, período em que Dalua ainda era presidente da Câmara de Vereadores. Hoje, ele ocupa o cargo de prefeito interino, após assumir a prefeitura com base em um documento assinado por Flávio Dino no dia 4 de março.

A gravação apresenta, ao menos, três indícios graves. O próprio Dalua confirmou a autenticidade do áudio, argumentando tratar-se de uma conversa de caráter republicano e institucional. Ainda assim, a primeira fala já se mostra problemática — ainda que seja a menos grave — por seu teor indecoroso e incompatível com a responsabilidade dos cargos ocupados pelos interlocutores.

No conteúdo, Alcolumbre aparece utilizando sua posição como presidente do Congresso Nacional para influenciar decisões do Judiciário, levando interesses políticos e, segundo a narrativa, obtendo êxito em suas demandas. A possibilidade de troca de favores entre Legislativo e Judiciário lança suspeitas sobre a imparcialidade de decisões judiciais, especialmente aquelas que atingem adversários políticos.

A conversa também sugere a influência de Dalua junto ao Tribunal de Contas do Estado (TCE) e indica uma preocupante ausência de autonomia entre seus aliados na Câmara Municipal, reforçando a percepção de que decisões legislativas poderiam ser conduzidas sem resistência. Nesse contexto, cabe lembrar que Marília Góes, esposa do atual ministro Waldez Góes — ex-governador por 16 anos —, assumiu como conselheira do TCE em 2022. Soma-se a isso o estilo político do grupo liderado por Alcolumbre, caracterizado pela aprovação de pautas sem debate ou oposição, prática também observada na Assembleia Legislativa do Amapá (ALAP), onde a ampla maioria dos deputados segue orientações do Executivo.

É justamente nesse cenário que o grupo do Dr. Furlan se apresenta como contraponto, não se submetendo a esse modelo e a essa liderança e defendendo uma atuação voltada aos interesses da população, e não à manutenção de poder.

Outro ponto levantado diz respeito à existência de uma articulação política estruturada, que parece um “mini gabinete do ódio”, formado por figuras com mandato eletivo — um senador, um vereador e um governador. Essa conversa não foi de uma militância ou comunicação política comum, mas de uma estratégia coordenada pelos próprios mandatários para enfraquecer e eventualmente retirar do cenário político um prefeito reeleito com mais de 85% dos votos válidos em 2024.

Parte dessa estratégia incluiria o desgaste da imagem do então prefeito por meio de ataques a órgãos vinculados à prefeitura, o que, com frequencia, tem repercussão amplificada por grupos de comunicação aliados ao grupo do Alcolumbre. Enquanto Clécio fala de repercutir a Macapaprev para desgastar o prefeito, estava acontecendo a perda de cerca de 400 milhões de reais de recursos da previdência estadual, investidos no Banco Master sob responsabilidade de indicação política, causando enormes prejuízos a aposentados e pensionistas estaduais.

Por fim, o conteúdo do áudio reforça a percepção de que as articulações políticas visam preservar um grupo no poder e afastar adversários com forte apoio popular. Quando interesses de um grupo se sobrepõem aos de toda uma população — e, mais grave, quando há acesso privilegiado a tribunais para tratar de demandas políticas —, o risco à democracia se torna evidente.

Vale destacar que, atualmente, a capital encontra-se sob gestão vinculada ao grupo de Alcolumbre por força de decisão judicial. Caso esse cenário se mantenha, restará concluir que houve, na prática, a anulação do resultado das eleições de 2024, por decisão de natureza judicial — um precedente delicado, que levanta questionamentos sobre o futuro do processo democrático.

Se a definição dos rumos políticos passa a ocorrer em ambientes restritos, longe do escrutínio público e do voto popular, o que está em jogo não é apenas uma disputa de poder, mas a própria legitimidade da democracia. O conteúdo desse áudio, portanto, ultrapassa o campo político local e acende um alerta nacional sobre seus possíveis impactos, inclusive nas eleições de 2026.

Adriana Garcia

Jornalista na Amazônia

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