
O caso da Amprev com o Banco Master envolvendo dinheiro de aposentados e pensionistas é de interesse público.
A população do Amapá merece respostas claras, objetivas e garantias concretas de que os R$ 400 milhões investidos pela AMPREV no Banco Master serão devolvidos. Trata-se de um tema que permanece em evidência no cenário nacional, mas que, no Amapá, parece ser tratado com silêncio institucional. O governo estadual deve explicações ao povo.
Não se trata apenas de omissão. Há sinais de tentativa de esvaziar completamente o debate público. Isso ficou evidente durante agenda do governador Clécio Luís, no domingo, 22 de fevereiro, quando o repórter Ryan Araújo, do Portal Conexão Notícias, fez a pergunta que grande parte da população gostaria de ouvir respondida: o que acontecerá com os recursos investidos pela AMPREV no Banco Master? O que o Governador tem a dizer sobre a operação na AMPREV?
Em vez de uma resposta imediata e transparente, houve tensão. Segundo boletim de ocorrência registrado pelo jornalista, a subsecretária de comunicação do governo, Lilian Monteiro, tentou retirar seu celular e microfone, numa atitude que gerou constrangimento e preocupação. Em uma democracia, existem perguntas proibidas? Não deveria haver. Mas os fatos levantam esse questionamento.
Diante do tumulto, o governador pediu que o repórter falasse e respondeu. Contudo, a declaração não trouxe segurança nem indicou caminhos concretos para a recuperação dos valores. Em vídeo que circula nas redes sociais registrando o ocorrido, o governador afirmou:
“A operação da AMPREV é uma operação que a Polícia Federal está investigando a aplicação que nós fizemos, que a AMPREV fez no Banco Master. Quando a AMPREV fez esta operação, ela fez porque estava autorizado pela lista exaustiva da Previdência Nacional, pela lista exaustiva do Banco Central. Assim: ‘cês podem investir nesses aqui que é seguro, eles estão dentro das regras’. Isso foi feito. Infelizmente houve uma descoberta de questões dentro do Master que não cabe a mim. Então foi feito dentro das melhores...”
A fala interrompida e genérica não responde à principal angústia dos aposentados e pensionistas do Estado: o dinheiro será recuperado? Quando? De que forma?
Há um ponto ainda mais grave no episódio: por que a pergunta provocou tanta irritação na assessoria do governo? Por que impedir um jornalista de exercer sua função? Se o tema é debatido nacionalmente, por que a imprensa local não poderia abordá-lo com liberdade? É justo que o povo do Amapá descubra os desdobramentos do caso por meio de jornalistas de fora?
A dificuldade enfrentada pela imprensa independente no Estado se soma à inércia do Parlamento. O deputado estadual R. Nelson busca assinaturas para instaurar uma CPI da AMPREV e investigar o caso, mas, até o momento, apenas o deputado Lorran Barreto assinou o pedido. A ausência de apoio parlamentar aprofunda a sensação de isolamento das vítimas e indiferença às suas causas.
Quando o Parlamento não se mobiliza em favor dos aposentados e pensionistas, e quando um repórter encontra obstáculos ao fazer uma pergunta de interesse público, o debate democrático se fragiliza.
O governador Clécio Luís já é conhecido por reagir judicialmente a críticas, movendo processos contra comunicadores, influenciadores e jornalistas. Um desses profissionais responde a dezenas de ações judiciais. Esse cenário reforça a percepção de intimidação e restringe o ambiente de livre manifestação.
O caso dos R$ 400 milhões não é um assunto menor. Trata-se do patrimônio previdenciário de servidores que trabalharam uma vida inteira. Transparência não é favor — é obrigação. E perguntas não são ataques — são instrumentos essenciais da democracia.
Adriana Garcia
Jornalista na Amazônia
