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Entre o Isolamento e a Resistência: A Trajetória de R. Nelson na Política do Amapá. Foto: Assessoria parlamentar

Errinelson Vieira Pimentel, mais conhecido como R. Nelson, tem se destacado não por alianças políticas, mas por pagar o preço da independência na Assembleia Legislativa do Amapá (ALAP). Para ele, a liberdade de atuação é condição essencial para legislar e, principalmente, fiscalizar em nome do povo — tarefa da qual afirma não ter aberto mão desde o primeiro dia de mandato.

Chegando ao quarto ano como deputado estadual, R. Nelson mantém um perfil discreto, porém com atuação firme e constante. É o único parlamentar que se declara oposição clara ao governo. Segundo ele, essa postura lhe custou quase quatro anos de isolamento político: sendo ignorado pela mesa diretora, tendo requerimentos engavetados e enfrentando dificuldades para debater suas pautas no plenário. Ainda assim, segue utilizando as redes sociais para prestar contas diretamente à população, a quem chama de seu verdadeiro patrão.

No Amapá, é comum ouvir que “todos os políticos são iguais”. Para quem acompanha o mandato de R. Nelson de perto, no entanto, essa generalização teria exceções — e ele seria uma delas.

Em entrevista exclusiva ao Portal Conservador News, o parlamentar falou sobre sua trajetória, seus princípios e a visão que sustenta sua atuação política.

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"Eu não abri mão da liberdade e  da independência para fiscalizar o executivo, pois este é o papel do legislador". Foto: Redes sociais

Origens, família e formação

Filho de mãe professora concursada do Estado e pai que exerceu diversas atividades — garimpeiro, pedreiro, comerciante — sempre em trabalhos pesados, R. Nelson cresceu em uma família simples. Tem três irmãs e um irmão. A família saiu do Piauí e chegou ao Amapá em 1991.

Recentemente, recebeu da Câmara de Vereadores o título de cidadão macapaense, cidade onde construiu a maior parte de sua história. Pai de três filhos do primeiro casamento, considera sua maior conquista ter sido aprovado, aos 19 anos, no concurso para o Corpo de Bombeiros Militar, onde serviu por mais de 20 anos.

Segundo ele, essa conquista abriu portas para outras realizações, como a formação em Direito. Há mais de 15 anos, também atua como advogado.

A persistência até o mandato

Sua trajetória política foi marcada pela insistência. Foi candidato a deputado estadual em 2014 e a vereador em 2016 pelo Republicanos. Em 2018, já no PL, voltou a disputar vaga para deputado estadual, ficando como suplente.

Em 2022, novamente colocou seu nome à disposição da sociedade. Com forte mobilização de equipe, tornou-se o mais votado do pleito, com diferença de 161 votos da segunda colocada, Luciana Gurgel — resultado que ele define como improvável dentro da nominata em que estava inserido. Atualmente, integra o Podemos.

O que o levou à política

R. Nelson afirma que sua motivação surgiu ao perceber um Brasil rico, porém profundamente desigual.

“Tudo passa pela política. Quem decide o orçamento? Quem aprova uma lei que será boa ou ruim para a sociedade? É a política. Mas vejo que a maioria não representa a coletividade. Representa nichos com poder concentrado.”

Ele destaca que o Amapá está entre os estados com maior índice de desigualdade, especialmente na geração de empregos, e lembra que mais da metade da população depende de benefícios sociais.

Para ele, o político não deve ser visto como celebridade, mas como servidor público com maior responsabilidade.

“Você abre mão do seu recurso, paga imposto, e o governo deveria devolver isso em hospital funcionando, ruas asfaltadas, medicamentos disponíveis. Política é para garantir serviços públicos de qualidade e melhor distribuição dos recursos.”

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R. Nelson segue lutando pela independência, transparência e o resgate do debate na ALAP. Foto: Assessoria Parlamentar

A experiência nos Bombeiros e o contato com a realidade

O desejo de atuar na política começou ainda durante sua atuação no Corpo de Bombeiros.

Ele relata que trabalhou no atendimento pré-hospitalar, em acidentes, transporte de doentes e parturientes, percorrendo periferias e pontes da capital. Lembra das dificuldades estruturais no Hospital de Emergência (HE) e na maternidade.

“Levávamos grávidas e não tinha vaga, não tinha maca, não tinha médico. Às vezes, a mulher paria ali mesmo. Isso foi se somando à minha vivência.”

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Aliado do Prefeito da capital, Dr. Furlan, R Nelson acredita que o Estado merece um gestor que trabalha e entrega. Foto: Assessoria Parlamentar

Os principais problemas do Estado

Questionado sobre o que mais o incomoda no Amapá, ele aponta a falta de geração de emprego, a deficiência de infraestrutura, a ausência de saneamento básico e a fragilidade da educação pública.

R. Nelson destaca que a escola é a base da formação cidadã. Conta que visitou um liceu em São Jorge, na Guiana Francesa, e ficou impressionado com a estrutura de tempo integral, laboratórios e espaços esportivos — modelo que sonha ver implementado no Amapá.

Mandato não é assistencialismo

O deputado afirma não exercer mandato com foco assistencialista.

“Mandato não deve servir para fazer ação social. Isso é papel do Estado. Eu ajudei pessoas como bombeiro e como advogado. O parlamentar deve legislar e fiscalizar.”

Independência e qualificação na política

Para R. Nelson, independência é essencial. Ele defende que representantes deveriam ter qualificação mínima para exercer o cargo.

“Sem conhecimento jurídico e administrativo, o parlamentar vira refém de assessores. Política exige conhecimento do sistema legal, da Constituição, das leis.”

Ele acredita que educação, saúde, segurança e infraestrutura são prioridades interligadas e que a gestão pública deve ser menos burocrática e mais eficiente.

Críticas à atual gestão

R. Nelson critica o que considera falta de debate na Assembleia Legislativa do Amapá e afirma que a Casa teria se tornado um “cartório”, apenas carimbando decisões do Executivo.

Cita como exemplo a votação do orçamento, que, segundo ele, ocorre sem amplo debate público. Também questiona a prioridade de recursos, afirmando que a segurança pública deveria preceder investimentos em outras áreas.

Sobre a gestão do governador Clécio Luís, afirma que há tentativa de silenciamento da crítica por meio do controle da comunicação institucional.

“Imprensa livre, parlamento independente e transparência fortalecem a gestão.”

O selo “Tartaruga Cansada”

Durante fiscalizações em obras atrasadas, R. Nelson passou a registrar vídeos mostrando o tempo de atraso — muitas com quatro ou cinco anos de paralisação.

Um amigo comentou que o governo parecia uma “tartaruga cansada”. A expressão virou selo. O símbolo passou a ilustrar vídeos sobre obras atrasadas e ganhou repercussão nas redes.

Segundo ele, o selo é direcionado à gestão e às obras, não a questões pessoais — embora montagens com sua imagem tenham circulado posteriormente por populares.

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Criador do Selo "Tartaruga Cansada", o parlamentar fiscaliza e cobra o governo estadual, como todos os parlamentares deveriam fazer. Foto: redes sociais

O maior problema da ALAP, segundo ele

Para o deputado, o mais grave não é perder votações, mas não ter direito ao debate.

Ele relata que requerimentos para convocação de secretários sequer entram em pauta.

“Eu poderia perder por 20 a 1, mas ao menos teria debatido. Hoje, nem chega ao plenário.”

Afirma que a ausência de debate enfraquece o Legislativo e impede que a sociedade conheça a posição real de cada parlamentar.

Propósito e reeleição

R. Nelson afirma que seu objetivo é resgatar a independência do Poder Legislativo estadual. Considera que seu primeiro mandato foi marcado por desafios e que precisa de continuidade para fortalecer a instituição.

“Minha bandeira é a independência do mandato. Eu poderia ter aberto mão disso por regalias, mas não abri.”

Ele diz que pretende disputar a reeleição, acreditando que ainda pode contribuir para fortalecer a Assembleia e ampliar o debate público.

R. Nelson afirma que deseja deixar como legado a imagem de alguém que tentou fazer o melhor, com transparência e cobrança constante por resultados. Para ele, o papel do parlamentar é mais difícil que o do Executivo, pois não constrói obras — mas constrói fiscalização e posicionamento.

E é justamente nessa postura que ele sustenta sua identidade política: independência, fiscalização e defesa do debate.

Adriana Garcia

Jornalista na Amazônia

 

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